Pensar a Feira Santos

Escrito por Lúcio Balula.

Sendo eu portador de uma Licenciatura em Animação Sociocultural, e sendo a Feira dos Santos, mais do que um mero comércio de produtos, por razões históricas, étnicas e culturais, entendi que o meu contributo profissional poderia ser benéfico à preservação desta tradição secular!

É do conhecimento dos Mangualdenses, que um dos mais emblemáticos acontecimentos locais, a Feira dos Santos, se encontra em declínio. As razões desse declínio podem ser várias. Poderá simplesmente já não existir interesse por parte do público nos produtos comercializados pelos feirantes. Talvez este tipo de comércio não goze de infra-estruturas adequadas aos tempos contemporâneos, ou mesmo porque a oferta cultural é reduzida ou ineficaz, ainda que denote progressos que têm sido levados avante nos dois últimos anos, designadamente a feira de artesanato.

É notório, que muitos dos produtos disponíveis na presente Feira dos Santos, pouco ou nada interessam a muitos dos mangualdenses e visitantes, pois como é sabido, há muito que este tipo de comércio se deixou invadir pelo mundo ilegal da contrafacção, com agravante de a maior parte dos produtos não portadores das anteriormente referidas ilegalidades, serem produtos de ténue qualidade. No que toca aos serviços na feira prestados, nomeadamente as “barraquinhas de comes e bebes”, estes muito deixam a desejar, quer em termos de higiene, quer termos de comodidade. Relativamente à higiene, a opinião dos mangualdenses e visitantes é quase unânime, são necessárias casas de banho em quantidade e qualidade, com várias limpezas diárias, e são também necessárias medidas de prevenção no âmbito gastronómico, pois só assim poderemos preservar aquele que é um dos atractivos da feira, ou seja, a febra ou fêvera para alguns. Este é um campo onde é fundamental apostar; se no passado as exigências ao nível da saúde alimentar eram reduzidas, hoje as expectativas quanto à mesma são muitas e, não tenho dúvidas de que as últimas não se coadunam com a confecção de alimentos em locais repletos de pó. Neste contexto, sugiro até a celebração de um protocolo entre a autarquia e a restauração local, no sentido de integrar a restauração local na gastronomia por excelência da Feira dos Santos.

Uma das áreas onde denoto uma acção francamente lamentável, é na acção lúdico-pedagógica infantil, muito mais poderia ser feito para divertir as crianças e, consequentemente, libertar os pais para passear. Noutros eventos semelhantes a nível nacional existem parques lúdicos para crianças, onde existem pedagogos e não pedagogos com actividades mera diversão (camas elásticas, insufláveis, jogos tradicionais, etc.) e de educação não formal, (eco-arte, campanhas de segurança infantis, jogos de mímica, etc).

Como já foi referido por muitos, também eu defendo o retorno da feira para o interior da cidade, não apenas por questões de beleza estética, mas também pela vivacidade da própria cidade. Sei de antemão que opiniões divergentes surgirão e pelas mais diversas razões. Uns começarão por dizer que os feirantes destroem a pavimentação dos locais onde comercializam, já outros, simplesmente porque habitam no local ou perto dele dirão que os constrangimentos causados não justificam a mudança. Mas a estes só me resta proferir que a tradição não pode cessar, pois todos sabemos o quão forte é a mesma neste concelho e o quanto simboliza ela no coração dos mangualdenses. Nesse sentido, a feira deve apenas ser deslocalizada para ruas de pavimentação sem alcatrão, já que nestas o restauro é mais barato e fácil, podendo até ser feito por funcionários autárquicos, não representando por isso quaisquer custos adicionais para o erário público. Ainda assim, no intuito de minimizar os habituais danos na via, proponho a aquisição de um toldo comum de grandes dimensões a dispor na localização encontrada. Este último aspecto traria mais uniformidade e beleza à feira e consequentemente menos problemas em termos de preservação da via. Considero que estas opções poderão ser uma mais-valia na necessária modernização do evento. Já no que respeita aos que habitam na hipotética zona de feira, limito-me a apelar ao espírito de sacrifício, que apenas se prolongará por 2 dias no ano. Será isto pedir muito?! Habitei-me durante seis anos em plena Avenida da Senhora. do Castelo, local esse onde durante muitos anos a Feira dos Santos decorreu, com o acréscimo da designada feira quinzenal, por isso, sei bem quais os problemas que ela acarreta.

Uma das maiores lacunas que encontro em quase todas as feiras de cariz anual, é a não existência de um método de contagem de visitantes. Para muitos isto pode parecer absurdo, mas para mim esta é uma das mais importantes componentes, pois só assim poderemos saber qual a verdadeira oscilação do número de visitantes de ano para ano, o que nos ajudará a encontrar formas de dinamizar a própria feira. Esta contagem há muito deveria existir e mais vale tarde do que nunca, mas quanto mais tarde ela aparecer, muito mais custos implicará.

Devem também existir estudos de carácter sociológico estatístico relativamente aos visitantes da feira, pois, é a meu ver importante conhecer quais os escalões etários e classes sociais que mais frequentam esta carismática efeméride local, assim como a sua localidade de origem. Estes dados seriam o maior trunfo que a autarquia local poderia ter em mãos, já que permitiriam adequar a Feira dos Santos ao perfil dos seus visitantes, assim como, implementar estratégias para a cativação de novos públicos, sejam elas ao nível de espectáculos (porque não uma tarde de fados, ranchos?!) ou a outros níveis.

Aqui ficam algumas ideias, provenientes de uma das áreas da Animação Sociocultural, ou seja, a gestão e organização de eventos, a antropologia ou a sociologia que poderão ser uma grande ajuda na preservação e dinamização da Feira dos Santos.

Com os melhores cumprimentos

Lúcio Balula

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